Sobre Grupos

O grande perigo de aceitar verdades universais não é, necessariamente, a possibilidade de serem falsas, mas o facto de orientarmos aspetos da nossa vida em função delas. Hoje em dia há teorias que são universalmente aceites porque perduraram no tempo, como por exemplo a evolução das espécies por seleção natural, a lei da gravitação universal ou a rotação e transladação da Terra. Estas ideias exemplificam o efeito Lindy.

O efeito Lindy foi um termo utilizado por comediantes nova-iorquinos no restaurante Lindy e descrito pelo ensaísta Albert Goldman no artigo “Lindy’s Law”. Neste artigo Goldman escreveu que “a esperança de vida de um comediante de televisão é proporcional à quantidade de exposição que este já teve a este meio”. Apesar da originalidade da afirmação para descrever uma observação, a sua aplicação seria adoptada para descrever uma verdade mais universal. Em 1982, Benoit Mandelbrot, matemático francês, reconhecido pelo seu contributo para o campo da geometria fractal aplicou o termo para descrever que um certo tipo de eventos (ideias, livros, entre outros) seguem distribuições com caudas longas ou distribuições de Lei de Potência, ou seja, a probabilidade de continuarem a existir aumenta com o próprio tempo de existência (ver gráfico abaixo).

A expectativa de vida futura é proporcional à idade atual. O que é mais provável existir daqui a quinhentos anos, o edifício que estão a construir na tua urbanização ou as pirâmides egípcias? As pirâmides de Gizé foram construídas há mais de 4500 anos e é expectável que continuem a existir por mais alguns milénios. A esperança média de vida de um novo edifício é de 50 a 100 anos, sendo que, de acordo com o efeito Lindy, é expectável que, se este ultrapassar a barreira dos 100 anos, dure pelo menos outros 100.

O mesmo não se aplica a vida biológica, quanto mais velhos formos, menor é a nossa esperança de vida.

A sociedade moderna está construída e muito dependente de ideias modernas. Este tipo de estrutura social e política apresenta bastantes fragilidades que, em muitos aspetos, atingiram um ponto de não retorno.

Utilizando o exemplo anterior de um edifício novo. Se este for construído com base em ideias de engenharia modernas, demasiado complexas, que nunca foram anteriormente testadas, e, que por esse motivo é necessário desenvolver práticas novas de manutenção, é uma questão de tempo até se observarem as fragilidades do mesmo.

A fragilidade das dietas modernas revela-se quando substituímos alimentos naturais, aos quais o nosso sistema digestivo se adaptou ao longo de milhões de anos, por suplementos sintéticos ou descobertas científicas recentes. A fragilidade da Inteligência Artificial reside no facto de não se apresentar apenas como uma ferramenta de trabalho, mas como uma revolução única, utilizada para justificar as avaliações astronómicas que as empresas tecnológicas atribuem a si mesmas. A fragilidade das políticas climáticas não se apresenta na tentativa dos governos em diversificar as suas infraestruturas energéticas, mas sim na aceitação de previsões apocalípticas que levam à destruição de fontes de energia seguras e testadas para subsidiar, em milhares de milhões de euros, as tecnologias “verdes” sem garantias de sustentabilidade ou fiabilidade.

Os grupos que se formam em torno destas ideias encontram-se hoje isolados da sociedade devido às redes sociais, à homogeneidade dos estilos de vida e ao medo social. Nestes contextos, criam-se bolhas e câmaras de eco baseadas em crenças e não na realidade.

No seguinte excerto da autobiografia de Assata Shakur, ela descreve um dos momentos em que tentou questionar a maneira como o Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party) se estava a tornar permissivo às debilidades do seu líder Huey Newton:

“Quando eu disse que o Huey precisava de aulas de oratória, atacaram-me com tudo. Quando o Huey mudou o seu título de ministro da Defesa para o ridículo «Comandante Supremo» e depois para o ainda mais ridículo «Servo Supremo», quase ninguém disse nada. Esse era um dos grandes problemas do Partido. A crítica e a autocrítica não eram encorajadas, e o pouco que era feito muitas vezes não era levado a sério. A crítica construtiva e a autocrítica são extremamente importantes para qualquer organização revolucionária. Sem elas, as pessoas tendem a afogar-se nos seus erros, em vez de aprenderem com eles.”

Neste livro, Assata também fala no papel que o programa COINTELPRO (abreviatura de Counter Intelligence Program) do FBI teve na dissolução do partido. Este foi um programa secreto e ilegal de contrainteligência conduzido pelo FBI, entre 1956 e 1971.  Sob a direção de J. Edgar Hoover, o seu objetivo principal era “expor, perturbar, desviar, desacreditar ou neutralizar” as atividades e os líderes de movimentos políticos considerados subversivos nos Estados Unidos. Embora tenha começado com o Partido Comunista, o foco virou-se rapidamente para o movimento dos direitos civis e grupos militantes negros, entre eles o Partido dos Panteras Negras e líderes como Martin Luther King Jr. ou Malcolm X.

As táticas usadas incluíam: infiltração e provocação, com a colocação de informadores para criar conflitos internos e incentivar atos violentos que justificassem prisões; guerra psicológica, através do envio de cartas anónimas e notícias falsas para destruir casamentos, amizades e alianças políticas; assassinatos e prisões forjadas, como nos casos célebres de Fred Hampton (morto pelo FBI e pela polícia de Chicago, enquanto dormia) e das inúmeras acusações criminais falsas contra a própria Assata Shakur.

Este tipo de programa revela uma maior eficiência em grupos do que em indivíduos, uma vez que estas organizações possuem uma estrutura em rede com vários nós. O ataque a um ou dois nós-chave pode provocar um efeito em cadeia em todo o grupo. Além disso, a sua visibilidade pública é mais simples de monitorizar e as suas vulnerabilidades internas são mais fáceis de explorar, dado que as organizações apresentam frequentemente fações ou divisões ideológicas que geram disputas internas. Da mesma forma, a pressão jurídica, a interferência no financiamento e as campanhas públicas afetam os recursos coletivos da organização de forma imediata.

As táticas do programa COINTELPRO foram menos eficientes no ataque a indivíduos. Estas baseavam-se na exploração da reputação, das relações sociais, da exposição legal ou do stress psicológico. Uma vez que estas ações afetam apenas uma pessoa de cada vez, o seu impacto é menos abrangente e mais dispendioso. Enquanto que um grupo se reúne numa sede ou rede social, o que facilita a sua monitorização e controlo, um indivíduo é mais imprevisível e difícil de acompanhar nas suas deslocações diárias. Além disso, o assédio individual é mais difícil de ocultar e mais fácil de rastrear. Embora as ameaças, a vigilância ou as campanhas de difamação possam isolar a pessoa de forma devastadora, raramente chegam a comprometer toda a sua comunidade.

“Intuitions Come First, Strategic Reasoning Second.”

“A intuição vem primeiro, o raciocínio estratégico em segundo lugar.”

— Jonathan Haidt

Estereotipadamente, quando um grupo de homens se junta num bar e ultrapassa as cordialidades iniciais, surgem três tópicos de conversa: futebol, mulheres e política. Um deles tem uma preferência por loiras, outro é adepto do Vitória de Guimarães e outro não reconhece alternativa viável à AD para governar o país. Cada um defende com paixão as suas ideologias e racionaliza a sua opinião com factos, no entanto, nenhum reconhece que está a agir irracionalmente. O que gosta de loiras é, possivelmente, o mais racional de todos, gostos não se discutem.

Jonathan Haidt, propôs no seu livro The Righteous Mind um diagrama (imagem acima) como os nossos julgamentos morais realmente funcionam na prática, desafiando a ideia de que somos seres puramente lógicos. Quando algo acontece, como um evento, a nossa intuição reage instantaneamente. Nós sentimos de imediato se algo está certo ou errado antes de sequer pensar sobre isso (linha 1). Depois desse julgamento é que o nosso raciocínio começa a trabalhar (linha 2). O indivíduo não procura a verdade, mas sim justificações para o que já decidiu.

Uma vez que somos influenciados pela opinião e argumentos dos outros, o processo de reflexão não termina aqui. A influência social (linha 4) e a persuasão racional (linha 3) sequestram o nosso processo de julgamento. As linhas 5 e 6 estão a tracejado porque são raramente usadas. Estas representam a reflexão privada e julgamentos internos que o indivíduo dificilmente aplica, uma vez que o nosso raciocínio evoluiu para ser o nosso advogado de defesa, não um juiz imparcial. O seu trabalho é encontrar justificações para o que já sentimos, a nossa intuição.

“Men, it has been well said, think in herds; it will be seen that they go mad in herds, while they only recover their senses slowly, one by one.”

“Como já foi bem dito, os homens pensam em manada; ver-se-á que enlouquecem em manada, enquanto só recuperam o juízo lentamente, um a um.”

— Charles Mackay

Este modelo de intuição social explica muito sobre a nossa dependência da psicologia de grupos. Charles Mackay, na sua obra clássica de 1841, Memorando de Extraordinários Engodos Populares e a Loucura das Multidões, explora como a psicologia coletiva pode levar a comportamentos irracionais e destrutivos. O autor ilustra como indivíduos, por vezes racionais isoladamente, abandonam o pensamento crítico e a lógica quando integrados numa multidão. Ele argumenta que o desejo humano de pertencer a um grupo e a crença de que “tantas pessoas não podem estar erradas” alimenta o conformismo e a loucura coletiva.

O livro descreve como comunidades inteiras fixam subitamente a mente num único objeto (seja lucro financeiro ou zelo religioso) e o perseguem freneticamente até que uma nova “loucura” capte a sua atenção. Esta obra divide-se em três partes: os Delírios Nacionais, como as bolhas económicas, as Loucuras Peculiares, como a obsessão histórica com a caça às bruxas ou judeus, e os Delírios Filosóficos, como a alquimia ou profecias.

Os mecanismos de defesa aplicados pelos grupos são observáveis na natureza. Muitos animais desenvolveram a capacidade de detetar sinais químicos ou visuais de doença e afastam-se do indivíduo infetado. Quando um animal é criado em isolamento ou por outra espécie e depois tenta regressar ao seu grupo de origem ou integrar-se noutro grupo, este pode sofrer de ostracismo ou discriminação por “analfabetismo social”, uma vez que desconhece os códigos que regem esse grupo.

Em 1932, Isaac Deutscher foi expulso do Partido Comunista Polaco após a publicação do artigo ‘O perigo da barbárie sobre a Europa’, porque o partido considerou que ele estava a exagerar os perigos do nazismo e a difundir o pânico.

“Jung always quoted the Roman proverb: “Senator bonus vir, senatus bestia!” (One senator is a good man, but the senate is a beast.) One could say that whenever one is in a group, one has to hide one’s best nucleus, or very rarely let it come out. One has to draw a veil over a part of one’s personality because of the automatic lowering of the ethical level.”

“Jung citava sempre o provérbio romano: “Senator bonus vir, senatus bestia!” (Um senador é um homem bom, mas o senado é uma besta.) Poder-se-ia dizer que, sempre que se está num grupo, é preciso esconder o nosso melhor eu, ou deixá-lo transparecer muito raramente. É preciso ocultar uma parte da nossa personalidade devido à inevitável diminuição do nível ético.”

— Marie-Louise von Franz

Hoje, os nossos valores revelam uma tendência avassaladora para a conformidade. Nestes momentos, a ética tende cada vez mais a ser identificada com a obediência. Atingir a maturidade para superar o sentimento de solidão e não ser considerada uma “boa pessoa” só é possível quando o indivíduo se aceita corajosamente a si próprio. Quando os pais exigem que as crianças sejam ‘normais’, incutem valores que sacrificam o indivíduo em prol do “bem-estar coletivo”. 

A coragem surge quando alguém deixa de depender de algo exterior a si mesmo para adquirir a força de que carece. A perda do ‘eu’ e a sua substituição por um ‘pseudo-eu’ mergulham o indivíduo num estado intenso de insegurança, tornando-o num autómato social. 

Historicamente, não houve nenhum ato de opressão nazi que não fosse explicado como uma defesa contra a opressão de outrem. A invasão da Polónia foi justificada como uma retaliação, tal como o início da Primeira Guerra Mundial foi justificado como vingança pelo assassinato do arquiduque Francisco Fernando. 

O Homem não domina a Natureza, muito menos a sua própria natureza. A segurança de se sentir “senhor do Mundo” foi paga com a incapacidade de gerir a sua própria vida. Somos hoje solo fértil para a propagação de ideias extremistas, estas “ervas daninhas” camuflam-se no senso comum, na ciência, na saúde, na normalidade e na opinião pública. A afirmação de que os problemas são demasiado complexos para serem compreendidos pelo cidadão comum é falsa. As questões básicas da vida individual e social são simples, tão simples que todos as conseguem compreender. Se há ervas daninhas, arrancam-se.

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