Metade da população mundial é fã de futebol. No entanto, há países em que esta estatística é difícil de digerir. Os desportos mais populares em certas regiões do mundo são o críquete, o basquetebol, o hóquei no gelo e o râguebi, ou, no caso de seres americano, australiano ou irlandês, outro tipo de futebol. Se não fores adepto, não há nada de errado contigo, fica apenas sabendo que, estatisticamente, a próxima pessoa que conheceres, provavelmente será.
Como fã, sempre tive curiosidade em compreender este fenómeno. Que características tornam este desporto tão apetecível para povos com histórias, culturas e religiões tão distintas?
A falta de afinidade de certas nações com o futebol reflete-se na ausência de cinco gigantes demográficos no Mundial de 2026. A China, Índia, Indonésia, Paquistão e Nigéria (esta última uma potência africana que, surpreendentemente, falhou a qualificação) não garantiram presença no maior palco do mundo, apesar de somarem populações muito acima dos 200 milhões de habitantes.

Muitos argumentam que a disseminação do desporto por parte do Império Britânico é a principal causa da sua popularidade. Contudo, o críquete e o râguebi tiveram a mesma origem e não alcançaram a mesma pujança global. Aliás, muitas antigas colónias “rejeitaram” o futebol como desporto principal. A Índia, o Afeganistão, o Paquistão, o Bangladesh e a Guiana adotaram o críquete, enquanto os Estados Unidos da América, a Austrália, a Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné e Irlanda preferiram o râguebi ou derivados (como o futebol americano e o australiano). Olhando para estes factos, poder-se-ia afirmar que o Reino Unido foi o pior promotor que o futebol poderia desejar, dado que os seus vizinhos e colónias mais diretos optaram por desportos alternativos.
Neste artigo, descrevo as cinco razões principais para a hegemonia do futebol, começando pela mais óbvia, a acessibilidade.
1ª Razão: Acessibilidade
A característica mais importante para a globalização deste desporto é a facilidade que requere para a sua realização. Não é preciso muito para juntar um grupo de pessoas, uma bola de futebol e duas balizas. Nem é estritamente necessário as duas balizas, por vezes um banco de jardim serve ou, no caso de não existir um, duas camisolas no chão a fazer de postes resolvem o problema.
Na minha infância em escolas públicas, as bolas eram recursos preciosos e, muitas vezes, restritos às aulas de Educação Física. Mas isso nunca foi motivo para impedir uma criança de praticar o seu desporto favorito. Arrancávamos umas folhas de um caderno, ou usávamos umas folhas rascunho, amassávamo-las e com um bocado de fita cola fazíamos uma bola de futebol.
Ao contrário de muitos outros desportos, o futebol não impõe barreiras económicas. E se não há barreira económica, não há barreira física… bem, sim física.
2ª Razão: Inclusividade
Durante o período entre 2011 e 2014 os melhores avançados do Mundo eram Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Zlatan Ibrahimovic.
Destes três apenas Ibrahimovic jogava como um tradicional número 9. Juntou-se ao AC Milan em 2010 por empréstimo e ajudou-os a conquistar o título da Serie A. Após esta conquista assinou pelo AC Milan a título definitivo em 2011 e transferiu-se para o PSG em 2012. Com o novo clube conquistou duas Ligue 1, e atingiu os quartos de final da Liga dos Campeões pelos dois clubes durante esse período, perdendo duas vezes contra o Barcelona.
Lionel Messi operava mais como um “falso nove” no Barcelona, ligando o jogo com o trio de médios, internacionais espanhóis, Xavi, Iniesta e Busquets. Durante este período o argentino marcou 186 golos em competições oficiais pelo Barcelona, e ajudou o clube a ganhar um título da LaLiga, e uma Bola de Ouro, o prémio mais alto para a performance individual de um jogador de futebol.

No Real Madrid, Cristiano Ronaldo jogava predominantemente na esquerda, sendo que Karim Benzema ou Gonzalo Higuaín ocupavam a posição mais central. No entanto, José Mourinho, treinador do Real Madrid entre o período de 2010 e 2013, utilizou Ronaldo na posição de ponta de lança para situações de contra-ataque ou em jogos importantes em que a equipa não detinha a maior percentagem de bola. Durante este período ele conquistou um título da LaLiga e uma Liga dos Campeões, com o Real Madrid, e duas Bolas de Ouro.
Estas comparações servem apenas para constatar um facto. Por mais semelhantes que as características destes três jogadores sejam em termos de output ofensivo ou em termos das posições que ocupam no campo, um jogador tem 1,7 m, outro tem 1,87m e o outro tem 1,95m de altura.
Durante 7 épocas, entre 2013 e 2020, o trio atacante do Nápoles era principalmente constituído por José Callejón, Dries Mertens e Lorenzo Insigne, 1,78m, 1,7m e 1,63m de altura, respetivamente. Com uma média de 1,7m de altura, este conjunto produziu um dos melhores ataques que os adeptos do Nápoles experienciaram desde os tempos de Maradona. Com um incrível conjunto de qualidade técnica, este grupo de jogadores foi responsável por cerca de metade dos golos marcados pela equipa, durante o período que os três estiveram no clube, 352 golos no total.


No auge do futebol italiano, o AC Milan tinha um trio especial de atacantes holandeses. Frank Rijkaard, Marco van Basten e Ruud Gullit, com 1,87 m, 1,88 m e 1,91m de altura, respectivamente, jogaram juntos pelo AC Milan, durante as épocas de 1988/1989 a 1992/1993. Nestes cinco anos, e competindo com algumas das melhores equipas que o futebol mundial já viu, este conjunto foi capaz de conquistar duas Ligas dos Campeões Europeus, duas títulos da Serie A, duas Supercoppa Italiana, duas taças Intercontinental e duas Supercopa Europeias.
Em 1988 conquistaram também o Europeu com a sua seleção nacional e, nesse ano, os três, ocuparam o pódio do prémio da Bola de Ouro. Ganho por Marco Van Basten, que iria no futuro ganha-lo mais duas vezes, em segundo lugar ficou Ruud Gullit, que tinha ganho no ano anterior, e em terceiro lugar Frank Rijkaard. Foi a primeira e última vez que três jogadores da mesma nacionalidade a jogar pelo mesmo clube conquistaram o pódio deste prestigioso prémio.
Existem inúmeros exemplos de jogadores, com diversas características físicas, a atingir o padrão de elite neste desporto. Enquanto que em muitos desportos, como por exemplo o basquetebol, em que a posição de base é desempenhado por jogadores mais baixos e a posição de poste é ocupada por atletas mais altos, no futebol não é o caso. Existem guarda-redes de elite como Casillas (1,82m) e Courtois (2m), assim como defesas centrais de classe mundial como Cannavaro (1,75m) e Piqué (1,94m).
A diversidade física é muito característica deste desporto, mas não é a única. Também se joga com os pés.
3ª Razão: Singularidade
De todos os desportos do mundo, o que torna o futebol uma modalidade tão particular é o facto de se controlar o objeto de jogo com os pés. Ao contrário de outros desportos em que se dribla, ou controla-se a bola com as mãos, o futebol exige uma destreza motora invulgar, o que requer uma capacidade técnica mais elevada. Esta dificuldade acrescida contribui para a criação de momentos de verdadeira magia.
No momento em que escrevo este artigo, duas equipas portuguesas, o Benfica e o Sporting, garantiram a continuidade na Liga dos Campeões, no último jogo da fase de liga da competição. O Sporting assegurou o apuramento direto com uma vitória emocionante em Bilbau frente ao Athletic (2-3), graças a um golo a quatro minutos do fim. Já o Benfica, de forma memorável, garantiu a vaga nos play-offs com um triunfo em casa sobre o Real Madrid (4-2). O golo decisivo surgiu nos últimos segundos, através de um cruzamento de bola parada cabeceado pelo herói mais improvável, o guarda-redes Anatoly Trubin. Ironicamente, o sorteio dos play-offs voltou a colocar o Real Madrid no caminho dos encarnados.
A elevada dificuldade técnica contribui para outra característica importante deste desporto, a imprevisibilidade do resultado final de cada jogo.
4ª Razão: Equilíbrio
Já não constitui surpresa quando uma equipa que luta pela permanência vence um candidato ao título, independentemente da liga ou do país. Existem tantos fatores relacionados com a performance de uma equipa de futebol que gastar rios de dinheiro não garante sucesso. Condicionamento físico, dieta, qualidade de sono, capacidade técnica, organização táctica, perfil psicológico do jogador, apoio médico, ciência do desporto, recrutamento, infra-estruturas do clube, transparência e comunicação entre as estruturas do clube, ambiente e cultura vencedora e relacionamento com os adeptos do clube, são apenas algumas das mais importantes condições para a performance de uma equipa.
O equilíbrio competitivo que estes fatores providenciam a uma equipa são apenas a ponta do iceberg, o mais importante é o que acontece dentro das quatro linhas.
Com uma média de apenas 2,5 golos por jogo, o futebol é um dos desportos com a pontuação mais baixa no mundo. Um pequeno erro individual, uma falha táctica num momento de transição ataque-defesa, é suficiente para condenar uma equipa que dominou a posse de bola e xG (golos esperados) durante os 90 minutos. No futebol não é prestada atenção, pelo menos pelos comentadores desportivos, sobre nível de concentração hercúleo necessário para levar um jogo até ao fim sem cometer erros grosseiros que comprometam a integridade da equipa.
No final do dia, são 11 contra 11 e, em qualquer jogo, qualquer equipa pode vencer.
5ª Razão: Meritocracia
O último ponto que quero abordar refere-se aos valores que o futebol promove. Ao contrário do modelo de ligas fechadas, o futebol assenta num sistema hierárquico de promoções e despromoções que fomenta a competitividade. No final de cada época, os melhores sobem ou sagram-se campeões, enquanto os piores descem de divisão. O futebol inglês é o expoente máximo desta estrutura, possui quatro ligas profissionais integradas numa pirâmide tão complexa que quase exige um curso para ser compreendida na sua totalidade.
Quanto ao mercado, as transferências estão limitadas a janelas próprias, mas existem poucas restrições reais a tetos salariais ou valores de compra. Embora surjam agora modelos de “Fair Play Financeiro”, estes acabam por cristalizar o poder dos clubes mais ricos, promovendo a criação de monopólios e de modelos multiclube.
Um sistema meritrocrático com concorrência pura, um mercado de transferências maioritariamente desregulado, isto quase que soa a capitalismo clássico. Numa Europa com políticas socialistas cada vez mais vincadas, é interessante observar uma dinâmica contrária relativamente aos seus desportos. Por outro lado, ou seja, do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos da América fazem as coisas de maneira diferente.
Esta é a grande ironia do desporto moderno, os EUA, o antigo expoente do mercado livre, operam as suas ligas sob um modelo de inspiração socialista. Através de sistemas de receitas partilhadas, a maioria dos rendimentos de transmissão é dividida equitativamente, garantindo que o sucesso financeiro de um seja o sucesso de todos. Sendo ligas fechadas (franchises), o risco financeiro da despromoção é inexistente, protegendo o investimento dos proprietários e transformando-as em monopólios glorificados. Além disso, o sistema de draft inverte a lógica meritocrática ao recompensar as equipas com pior desempenho com as primeiras escolhas dos melhores jovens talentos, forçando um equilíbrio artificial. Com a imposição de tetos salariais rígidos, as ligas americanas priorizam o equilíbrio do coletivo e a sobrevivência do elo mais fraco, contrastando radicalmente com a sobrevivência do mais forte que define o futebol europeu.
Esta reflexão sobre os desportos americanos permite compreender o motivo pelo qual, atualmente, as equipas mais valiosas do mundo são, na sua esmagadora maioria, americanas. A rentabilidade, o valor de mercado e a segurança de investimento que este modelo socialista proporciona revelam-se economicamente mais eficazes do que o modelo capitalista promovido pelo futebol europeu.
Este ano, o número de clubes de futebol na Europa sob controlo ou investimento americano ultrapassou a marca histórica de 100 clubes. É inegável a influência americana nos maiores mercados de futebol mundial. A tentativa de implementar a Superliga, uma versão do modelo desportivo americano, foi a primeira vez que os fãs europeus tiveram de manifestar o seu desagrado, repudiando essa ideia assim que surgiu.
Porque, enquanto a estratégia americana conquistou os bolsos dos investidores e garantiu a estabilidade dos seus clubes, o futebol conquistou os corações de todo o mundo, ou, pelo menos, metade dele.

