Hoje em dia, a palavra anarquia causa alguma confusão, literalmente. Esta palavra foi sequestrada pelas estruturas “democráticas”, que lhe atribuíram uma identidade diferente. Neste momento, é a criança com quem mais ninguém brinca, os adultos disseram-nos para não a abordarmos, sem explicar porquê. Mais uma ordem a que nos sujeitamos, proveniente de medos irracionais que não questionamos.
Anarquia não é Mad Max, punk rock, ou putos de cara tapada com cocktails molotov. A associação desta palavra ao caos é um mito cultural, recentemente propagado pelas autoridades estabelecidas. Sempre que um grupo independente comete um ato de terror, que não se enquadre nos moldes de grupo extremista religioso, os governos e os meios de comunicação são rápidos a rotular de anarquismo. É desonestidade intelectual.
Anarquia (ἀναρχος, transliterado anarkhos) significa simplesmente sem líder ou sem governante. É o exponente máximo da liberdade pessoal. Nenhuma atividade humana que seja executada em liberdade necessita de um Rei, um Presidente ou uma autoridade máxima.
“Those who need leaders are not qualified to choose them”
“Aqueles que precisam de líderes não são qualificados para escolhê-los.“
— Michael Malice
A anarquia só é vista como utópica pelos seus críticos. Quem descredibiliza ou vê a liberdade individual como sendo uma utopia expõe mais os seus valores pessoais do que o alvo das suas críticas.
No seu livro Antifrágil: Coisas que Beneficiam da Desordem, Nassim Taleb, criou o termo e desenvolveu o conceito de antifragilidade. O autor classifica os sistemas num espectro que varia entre: fragilidade, robustez e antifragilidade.
Um sistema ou estrutura frágil é aquele que necessita de tranquilidade, que apenas se desenvolve e cresce em tempos de paz ou até ser testados. Robustos são os sistemas que resistem ao caos, enquanto que os antifragéis são aqueles que melhoram e beneficiam quando são sujeitos a diferentes tipos de stress.
Quando observamos as estruturas presentes na nossa sociedade atual, encontramos uma forte relação entre sistemas anárquicos e antifragéis.
“… a submissão limita-nos, mas a liberdade revela-nos as nossas limitações”
— Irene Vallejo
As línguas são anárquicas no sentido em que não existe uma autoridade central que defina como devem ser empregadas. Apesar de existirem regras de gramática, qualquer um é livre de escrever e falar como quer. Muitos escritores ignoram estas regras para melhorar a sua estrutura ou intenção poética, ou simplesmente, pode-se dar o caso de amadores como eu cometerem erros gramaticais involuntários. Desde que o leitor compreenda a intenção, a língua cumpriu a sua função.
A antifragilidade da língua ocorre na sua adaptação ao longo da história. Do latim vulgar ao latim ibérico, do galaico-português ao português arcaico e, por último, ao português moderno, a língua portuguesa evoluiu e ajustou-se às condições culturais emergentes, conquistas territoriais e à migração de povos. Atualmente, o português é fortemente influenciado por tendências brasileiras, como o calão e a gíria popular. Desde a adoção da internet, todas as línguas são globalmente impactadas pelo inglês e, com os movimentos migratórios provocados pela globalização, é natural que o contacto com outras línguas provoque adaptações e ajustes.
A natureza é também uma estrutura anárquica e antifrágil. Por mais que o ser humano tente controlar o seu habitat e moldar a natureza à sua vontade, ocorre sempre uma resposta, uma consequência não intencionada, um estabelecer de equilíbrio. A propagação de espécies infestantes ou sinatrópicas nos grandes centros urbanos é um bom exemplo disso. O crescimento populacional de ratos, pombos, gaivotas, formigas, baratas, entre outros, só é possível porque o ser humano eliminou grande parte dos predadores dessas espécies nestas áreas.
Não existe sistema mais complexo e que demonstre mais exemplos de antifragilidade que a natureza.
“The planet has been through a lot worse than us, been through all kinds of things worse than us, been through earthquakes, volcanoes, plate tectonics, continental drift, solar flares, sunspots, magnetic storms, the magnetic reversal of the poles, hundreds of thousands of years of bombardment by comets, and asteroids, and meteors, worldwide floods, tidal waves, worldwide fires, erosion, cosmic rays, recurring ice ages… and we think some plastic bags… and some aluminum cans are going to make a difference? The planet isn’t going anywhere. WE are!”
“O planeta já passou por coisas muito piores do que nós, já enfrentou todo o tipo de desastres piores do que nós, terremotos, vulcões, movimento das placas tectónicas, deriva continental, erupções solares, manchas solares, tempestades magnéticas, a reversão magnética dos polos, centenas de milhares de anos de colisões de cometas, asteróides e meteoros, inundações globais, tsunamis, incêndios por todo o mundo, erosão, raios cósmicos, idades do gelo recorrentes… e nós achamos que alguns sacos plásticos… e umas latas de alumínio vão fazer diferença? O planeta não vai a lado nenhum. NÓS é que vamos!“
— George Carlin
Podemos classificar o desenvolvimento tecnológico, quando ocorre de forma espontânea e livre, como sendo um procedimento anárquico e antifrágil. A necessidade é a mãe da invenção.
A Internet é um excelente exemplo. Por mais controlo paternal que exista, são raros os casos em que os pais conseguem proteger as suas crianças da exposição à Internet. O mesmo pode ser dito dos governos. Por mais milhares de milhões que os governos gastem na vigilância dos seus próprios cidadãos, apenas uma fração muito pequena é processada por sistemas de filtragem, e apenas uma parcela infinitesimal é efetivamente inspecionada por analistas. Apesar da pressão política exercida sobre vários CEOs de grandes plataformas digitais, como Jack Dorsey, Elon Musk e Mark Zuckerberg, para a censura seletiva de conteúdos, os governos continuam sem deter controlo significativo sobre a Internet.
Nos últimos anos foi criado o termo “malinformação”, este refere-se a informação verdadeira, ou que tem base factual, mas usada com intenção maliciosa para causar dano, manipular ou enganar. Com base nesta definição e enquanto os governos detiverem o monopólio da violência, estes são os únicos com autoridade para determinar o que é “malinformação”.
Para além da censura nestas plataformas digitais, já várias pessoas foram condenadas em países “democráticos” por causa de mensagens “ofensivas” online.
Entra a antifragilidade em ação.
As plataformas que se coordenam com os governos para promoverem a censura e o aprisionamento dos seus utilizadores incutem desconfiança e perdem parte da sua comunidade. Começam a engasgar-se em procedimentos burocráticos, o capital que era dedicado à inovação da plataforma é desviado para a criação de departamentos jurídicos focados na moderação de conteúdo, perdem mais utilizadores. Inicia-se uma hemorragia de capital, gera receio entre os investidores, levando a alguns a reduzir a sua participação na empresa. É o início do fim, é o ciclo de vida das empresas que abandonam a antifragilidade da Internet e dos seus inovadores e aliam-se à fragilidade dos governos e do sistema legal. A doença é terminal, mas será um processo lento, que pode levar anos a consumar-se, por fim, morrem, fertilizam os solos e plantam as sementes para a próxima geração de arquitetos e internautas, sejam eles humanos ou não.
“We all grow older, but we don’t all grow up”
“Todos nós envelhecemos, mas nem todos crescem“
— Dr. Neufeld
Nos livros O Mito do Normal e O Seu Filho Precisa de Si, o Dr. Gabor Maté e o Dr. Neufeld mencionam quatro necessidades irredutíveis para a maturação do ser humano. São estas:
- A relação de apego ou vinculação: o sentimento profundo de contacto e ligação com aqueles que são responsáveis por eles;
- Um sentimento de vinculação de segurança que permita à criança repousar do trabalho de ganhar o seu direito a ser quem é e como é;
- Autorização para sentir as próprias emoções, em especial, mágoa, fúria, tristeza e dor. Por outras palavras, a segurança de permanecer vulnerável;
- A experiência de brincar livremente no processo de amadurecimento.
O bebé humano é o mamífero mais dependente, uma vez que nasce prematuro neurologicamente. Esta dependência total dos seus progenitores pode durar até aos 2 anos de idade e a dependência parcial chega até aos 13 anos de idade, sendo que a dependência emocional e a criação de vínculos prolonga-se até ao final da adolescência e início da vida adulta.
O período inicial de desenvolvimento da criança é marcado pelas figuras de apego: os seus progenitores, a família e os cuidadores próximos constituem o núcleo principal. Posteriormente, o seu desenvolvimento é marcado pelo núcleo secundário, este diz respeito às suas interações com os seus pares. O núcleo terciário marca a sua interação com grupos de maior escala: sociedade, grupos culturais, religiosos ou políticos, para mencionar alguns.
As pequenas explorações que a criança inicia fora do seu núcleo principal começam com pequenas investidas de alguns minutos. A criança afasta-se da sua figura de apego e explora objetos, sons, animais, entre outros. Assim que ela deteta um desconforto, uma necessidade ou regulação emocional, retorna. Os períodos de exploração aumentam, a segurança e autonomia crescem e permitem à criança, através deste processo de aprendizagem, criar novas conexões neurais, tornando cada exploração num mecanismo para o desenvolvimento saudável do cérebro.
Atualmente, somos alertados para os perigos que envolvem deixar a criança desgovernada na rua ou outros locais públicos, no entanto, não é disso que se tratam estas explorações. Apesar destes perigos serem exagerados e não conterem nenhum peso estatístico, a presença de uma figura de apego é necessária para o sucesso deste mecanismo de aprendizagem. Outro obstáculo que se apresenta hoje em dia contra este processo é a captação ou a distração da atenção da criança pelas novas tecnologias.
O desenvolvimento saudável de uma criança permite, ao indivíduo, desenvolver uma segurança interna e uma autonomia emocional e cognitiva. Quando esta maturidade não ocorre, o indivíduo é mais vulnerável à psicologia de grupo e à adoção de estruturas e valores externos. Esta procura de validação e aceitação por parte de outros revela uma fragilidade interna, uma insegurança de um processo de formação incompleto do seu desenvolvimento infantil. Assim como a criança explora o mundo exterior para regressar ao núcleo afetivo e, com a ajuda dos progenitores, consolidar as suas experiências, também o indivíduo adulto, munido das capacidades neurais que desenvolveu na juventude, deve ser capaz de refletir sobre as suas experiências, informações e interações com os seus grupos externos, a fim de construir e definir a sua individualidade.
Muitos associam individualismo a egotismo, não é a mesma coisa. Alguém que valoriza a autonomia e desenvolvimento individual, seja ele de que tipo for, permite a este assumir, ou não, mais compromissos e responsabilidades, assim como obter maior disponibilidade para ajudar os outros.
A falta de individualidade e autonomia explica fenómenos contemporâneos como a polarização política, dependência de sistemas e estruturas externas, ansiedade social ou o conformismo em “massa”.
O maior engodo que o Estado conseguiu que as pessoas engolissem foi o conceito de “massas”. As “massas” fazem parte de uma projeção do Estado na população que governa, é uma mixórdia estatística, uma mediocridade coletiva. Não é uma reflexão da realidade.
É relevante compreender a psicologia de grupos para compreender como se desenvolvem estas interações. A nossa primeira reação é instintiva, assim que observamos ou ouvimos certas palavras-chave desperta em nós uma reação emocional. No momento, defendemos a nossa posição, formada com base na informação e conhecimentos que possuímos sobre o assunto. Posteriormente, fora do contexto de interação coletiva, baixamos a guarda, refletimos sobre o que foi discutido e acabamos por alterar ou consolidar as nossas posições.
Com os anos tornámo-nos cínicos. As explorações e as brincadeiras de criança, que se baseiam no processo de observação e que permitiram o desenvolvimento de redes neurais saudáveis, transformaram-se em interações que provocam reações emocionais fortemente calcadas pela experiência de vida ou por estereótipos e propaganda concebida para nos categorizar. É mais fácil controlar o povo se este estiver dividido em grupos. A nossa individualidade e autonomia limitam o poder estabelecido. Nós somos, individualmente, a sua antifragilidade.
“People are wonderful. I love individuals. I hate groups of people. I hate a group of people with a ‘common purpose’. ‘Cause pretty soon they have little hats. And armbands. And fight songs. And a list of people they’re going to visit at 3am. So, I dislike and despise groups of people but I love individuals. Every person you look at, you can see the universe in their eyes, if you’re really looking.”
“As pessoas são maravilhosas. Eu amo indivíduos. Eu odeio grupos de pessoas. Eu odeio um grupo de pessoas com um ‘propósito comum’. Porque, em pouco tempo, eles têm chapeuzinhos. E braçadeiras. E hinos de guerra. E uma lista de pessoas que eles vão visitar às 3 da manhã. Por isso, eu desgosto e desprezo grupos de pessoas, mas amo indivíduos. Cada pessoa para quem olhas, consegues ver o universo nos olhos dela, se estiveres mesmo à procura.“
— George Carlin
O abandono dos valores anárquicos e a permissão da consolidação do poder é um erro incompreensível quando se estuda os ciclos históricos dos impérios.
O império nasce do suor e do trabalho do povo, usufruindo de um período de prosperidade e expansão. Os líderes políticos cegam-se com o poder abdicado pelo povo, formam-se as instituições e surgem os monopólios, com destaque para o monopólio da violência. A corrupção lubrifica as engrenagens do sistema político, a taxação permite a competição desleal nas indústrias subsidiadas. Quando a negligência e a incompetência se tornam sistémicas, por falta de mecanismos de mercado ou de prestação de contas, a confiança do povo é traída. O império entra então na fase da desvalorização monetária e da expansão militar excessiva, até atingir o ponto de não retorno, onde a complexidade do sistema se torna maior do que os recursos disponíveis para o manter.
“This ideia of permanence via brute force is not historically supported and if you doubt it you can go to any museum of antiquity and see what all of the thugging gets the thugs. It come to an end. A messy end and it’s never to their benefit… The reckoning is not only coming, it is here. From ends that the opressor does not yet perceive and they are the last ones to know, and by the time that they realize is already to late.”
“Esta ideia de permanência através de força bruta não tem fundamento histórico e, se duvidarem disso, podem ir a qualquer museu de antiguidades e ver o que toda essa brutalidade traz aos brutamontes. Acaba sempre por chegar ao fim. Um fim caótico e nunca em benefício deles. O ajuste de contas não está para vir, ele está aqui. De frentes que o opressor ainda não percebe, e são sempre os últimos a saber. E, quando finalmente se apercebem, já é demasiado tarde.“
— Yasiin Bey
Não existe uma autoridade sobre os valores anárquicos, fazendo jus ao seu nome.
De Henry David Thoreau a Emma Goldman, de Bakunin a James C. Scott, escritores, filósofos, ativistas, linguistas, cientistas, qualquer um que compreenda os sistemas em que nos inserimos, que saiba identificar as leis que nos restringem, que viva ou explore os limites da sua liberdade pessoal, contribui para melhorar os valores e a definição de anarquismo.
A natureza fez-nos complexos, a agricultura tornou-nos escravos, a sociedade tornou-nos dependentes e a globalização tornou-nos empáticos.
Esta empatia deve ser valorizada se for contextualizada a um nível local, mas não é possível demonstrá-la ou enquadrá-la à escala mundial. Este sequestro de empatia, muitas vezes provocado pela Internet e pelos meios de comunicação incapacita-nos e torna-nos mais propensos a abdicar da nossa liberdade com a esperança que as autoridades utilizem essa liberdade para beneficiar outros.
No entanto, abdicar da nossa liberdade não beneficia ninguém, nem serve ninguém, simplesmente alimenta o sistema em vigor. Aceitamos a rigidez do sistema político porque achamos que para ele ser eficiente e funcionar corretamente não se deve quebrar à vontade do indivíduo, é, no entanto, exatamente o oposto. Um sistema ou uma lei que não funciona ou não justifica os seus benefícios a favor do indivíduo não deve existir.
O império atual é tão frágil quanto todos os que o antecederam.
A sua fragilidade é estrutural.
A sua falência é interna.
O seu declínio é evidente.
E o indivíduo é sempre o primeiro a aperceber-se disso.

