Sobre Liberdade

“And fantasy it was, for we were not strong, only aggressive; we were not free, merely licensed; we were not compassionate, we were polite; not good, but well behaved. We courted death in order to call ourselves brave, and hid like thieves from life. We substituted good grammar for intellect; we switched habits to simulate maturity; we rearranged lies and called it truth, seeing in the new pattern of an old idea the Revelation and the Word.”

“E fantasia era, pois não éramos fortes, apenas agressivos; não éramos livres, apenas tínhamos permissão; não éramos compassivos, éramos educados; não éramos bons, mas bem comportados. Cortejávamos a morte para nos considerarmos corajosos e escondíamo-nos da vida como ladrões. Substituímos o intelecto por uma boa gramática; mudámos hábitos para simular maturidade; reorganizámos mentiras e chamámos-lhe verdade, vendo no novo padrão de uma velha ideia a Revelação e a Palavra.”

— Toni Morrison

O que é liberdade? É difícil obter uma definição para a palavra. Segundo o dicionário é possível encontrar várias definições:

  • Direito de um indivíduo proceder conforme lhe pareça, desde que esse direito não vá contra o direito de outrem e esteja dentro dos limites da lei; Condição da pessoa ou da nação que não tem constrangimentos ou submissões exteriores. Mas, se essa lei ou nação for opressiva, o seu cidadão vive em liberdade?
  • Estado ou condição de quem não está detido, nem preso; Estado ou condição daquilo que não está preso, confinado ou com alguma restrição física ou material. Então, se é uma condição física, não existe opressão psicológica ou intelectual que afete essa liberdade?
  • Cada um dos direitos garantidos ao cidadão; Maneira de falar ou de agir sem tentar esconder sentimentos ou intenções; Desrespeito consentido de certas regras ou convenções; Capacidade de agir sem receio ou sem constrangimento; Familiaridade considerada excessiva. E, se essa liberdade se impõe à dos outros, não interfere com o seu próprio conceito?

Os filósofos da Antiguidade Clássica, como Sócrates, Platão e Aristóteles, definiram a liberdade primordialmente como autodomínio, em que a soberania da razão sobre as paixões definia o homem verdadeiramente livre. Esta premissa serviu de base para o estoicismo, que aprofundou a ideia de que a liberdade reside exclusivamente naquilo que depende da nossa vontade. No período da modernidade, com o surgimento dos direitos naturais de John Locke, consolidou-se a ideia de que a liberdade é inerente ao ser humano. No existencialismo, Sartre afirmou que o homem está “condenado a ser livre”, construindo a sua essência através das suas escolhas. De acordo com As Cartas de Catão, a história da humanidade é um registo de conflitos incessantes entre o Poder e a Liberdade, estando o Poder (governo) sempre pronto a alargar o seu alcance, invadindo os direitos das pessoas e usurpando as suas liberdades.

Com inúmeras definições sobre a liberdade, qual é, então, a condição daquele que é livre?

“I’m not a human, I’m a dove”

“Não sou um ser humano, sou uma pomba”

— Prince

A liberdade expressa-se de várias formas, liberdades civis e individuais, as liberdades políticas e económicas e as liberdades de expressão e artística.

Há umas semanas atrás, as elites mundiais juntaram-se em Davos para a sua reunião anual,  e com eles, vieram os seus brinquedos. Nas primeiras 48 horas, aterraram 157 jatos particulares, sendo o modelo mais comum o Gulfstream G650, avaliado em 78 milhões de dólares. Durante a semana, a Greenpeace registou um total de 709 voos privados, um por cada quatro participantes. Os hotéis custavam mais de 3000 dólares por noite. Alguns participantes trouxeram com os seus próprios chefes de cozinha e o mercado das “acompanhantes de luxo” aumentou em 4000%.

Os temas desta reunião? Sustentabilidade, igualdade, ação climática e resiliência global. Um painel alertou que a desinformação representava uma ameaça global maior do que as alterações climáticas. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chegou a promover uma nova Lei dos Serviços Digitais para controlar o que as plataformas “promovem e propagam”. Gita Gopinath, ex-número dois do FMI e economista de Harvard, alertou que podemos estar no início de um colapso da ordem global.

No seguimento desta reunião e de acordo com os eventos atuais, a mensagem é clara. Os mercados devem ser orientados, o discurso deve ser controlado, os resultados devem ser coordenados e o poder deve ser consolidado. Agora! Custe o que custar. Com estas restrições impondo-se a todas as formas de liberdade, o que é que nos resta?

“You think that it is the bird who is free. You are deceived; it is the flower”

“Pensam que é o pássaro que é livre. Estão enganados; é a flor”

— Reb Zalé (Edmond Jabès)

No seu livro Medo da Liberdade, Erich Fromm levanta pontos importantes na luta do Homem pela liberdade. A liberdade de expressão constitui uma vitória histórica contra as antigas restrições, no entanto, se a nossa opinião é formada pela opinião alheia, será que temos opinião própria, ou capacidade de formar argumentos originais?

O resultado desta influência é que o indivíduo ganha um ceticismo e um cinismo em relação a tudo o que é dito ou publicado, ou, por outro lado, adota uma crença ingénua em tudo o que lhe é dito, desde que provenha de fontes que considere terem “autoridade” para o fazer. Esta falta de opinião própria ou de espírito crítico, coloca o indivíduo numa procura incessante de estrutura. A perda de identidade leva-o pelo caminho de menor resistência, o conformismo.

“Freedom allies and exchanges itself with that which restrains it”

“A liberdade alia-se e troca-se com aquilo que a restringe”

— Jacques Derrida

No meu artigo Sobre a Corrida, falei das sapatilhas minimalistas ou barefoot. Para além dos benefícios que descrevi, esta atividade física está muitas vezes associada ao movimento Grounding ou aterramento. Este define-se como a prática deliberada de estabelecer contacto físico direto entre o corpo humano e a carga elétrica natural da Terra.

Segundo apologistas deste movimento, esta ligação permite a transferência de eletrões livres da superfície terrestre para o organismo, neutralizando o excesso de carga positiva (radicais livres) acumulada pelo estilo de vida moderno e pela exposição a campos eletromagnéticos. O objetivo é restaurar o equilíbrio bioelétrico do corpo, promovendo a autorregulação de sistemas fisiológicos, como a resposta inflamatória e ritmo circadiano.

“Love your ties to their last splendor, and you will be free”

“Ama os teus laços até ao seu último esplendor, e serás livre”

— Reb Elat (Edmond Jabès)

Apesar de existirem estudos sobre os benefícios de passar tempo no exterior e obter o máximo de luz solar durante o dia, como redução da pressão arterial, frequência cardíaca em repouso, melhorias no sono e humor, no que diz respeito à prática deste movimento, a literatura não é tão conclusiva.

A Natureza produz e introduz tantas variáveis neste tipo de estudos que é difícil isolar os fatores que nos beneficiam, e é esse o problema. Apesar da liberdade física e sensorial que esta atividade proporciona, com a eliminação da restrição que as sapatilhas apresentam, esta liberdade só pode ser expressa em função do objeto (sapatilha) que a restringe. Se esse é o caso, pode isso ser considerada liberdade?

“Nature, as the concrete form of the immediate, has an even more fundamental power in the suppression of madness. For it has the power of freeing man from his freedom… Liberty, far from putting man in possession of himself, ceaselessly alienates him from his essence and his world; it fascinates him in the absolute exteriority of other people and of money, in the irreversible interiority of passion and unfulfilled desire.”

“A Natureza, enquanto forma concreta do imediato, possui um poder ainda mais fundamental na supressão da loucura. Pois tem o poder de libertar o homem da sua liberdade… A liberdade, longe de colocar o homem na posse de si mesmo, afasta-o incessantemente da sua essência e do seu mundo; fascina-o na exterioridade absoluta das outras pessoas e do dinheiro, na interioridade irreversível da paixão e do desejo insatisfeito.”

— Michel Foucault

Somos limitados pelo que a nossa condição biológica e genética nos permite fazer, somos limitados pelas estruturas e ecossistemas em que nos inserimos, somos limitados pelas condições em que nos encontramos, económicas, políticas e sociais.

Somos dependentes dos nossos progenitores em infância, somos dependentes dos nossos amigos e das suas opiniões na nossa adolescência, somos dependentes dos nossos chefes e parceiros românticos na nossa vida adulta e somos dependentes de quem cuidar de nós na fase idosa da nossa vida.

Quem nos disse que somos livres, mentiu-nos. Ou melhor, a nossa liberdade surge apesar das nossas dependências e restrições, não contra elas.

“My revolution is born out of love for my people, not hatred for others.”

“A minha revolução nasce do amor pelo meu povo, não do ódio pelos outros”

— Immortal Technique

Hoje, a juventude vive em revolta com o mundo. Apesar de ter motivos válidos para isso, essa direção não traz liberdade nem paz. Essa revolta é apenas mais um bloco que se agrupa à sequência da história da humanidade.

A liberdade só é alcançada internamente, é um estado de espírito. A “liberdade de algo” não é liberdade, é um vínculo que criamos com o nosso opressor. Sendo um estado de espírito só se relaciona com o nosso presente, é independente do passado e do futuro.

O indivíduo realiza-se através da atividade espontânea e da maneira como se relaciona com o mundo. Ao deixar de ser um átomo isolado, a sua dúvida sobre si mesmo e sobre o sentido da vida desaparece. Essa dúvida surgiu da sua separação e da sua frustração perante a vida. Quando consegue viver, não de forma compulsiva nem automática, mas espontânea, a dúvida dissipa-se. O indivíduo torna-se consciente de si mesmo como um ser ativo e criativo, reconhecendo que existe apenas um sentido para a vida: o próprio ato de viver.

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