“What the advertiser needs to know is not what is right about the product but what is wrong about the buyer.”
“O que o publicitário necessita de saber não é o que há de certo com o produto, mas o que há de errado com o consumidor.”
— Neil Postman
O capitalismo é um sistema económico baseado na propriedade privada dos meios de produção, no trabalho assalariado e na procura de lucro, onde o mercado regula a produção e os preços através da lei da oferta e da procura. Evoluiu do mercantilismo, no qual o Estado exercia um controlo total, estabelecendo monopólios e protegendo o mercado interno com taxas elevadas.
Para mim, a definição de capitalismo é, simplesmente, a gestão voluntária individual do capital. Este capital pode assumir várias formas, conforme discutido no artigo Sobre Capital.
Vários autores, de políticos a economistas conceituados, tentaram definir o capitalismo e o seu enquadramento na sociedade. Grande parte, devido às suas formações académicas ou experiências profissionais, apenas conseguiram definir uma parte daquilo que representa. A disseminação de ideias preconcebidas sobre este tópico permitiu a transfiguração da palavra em algo mais ou, talvez, algo menos.
Em O Capital, Karl Marx realiza uma análise exaustiva e crítica do modo de produção capitalista. Publicado originalmente em 1867, o livro procura desvendar as leis económicas que regem a sociedade moderna, focando-se na relação entre o capital e o trabalho.
Marx inicia o livro com a distinção entre o capitalista e o trabalhador. O autor argumenta que a relação entre o capitalista e o trabalhador é definida por uma desigualdade estrutural e pelo conflito de interesses, centrada na exploração e na apropriação da mais-valia. Uma vez que o trabalhador não possui os meios de produção, é “forçado” a vender a sua única propriedade, a força do seu trabalho, a troco de um salário. Segundo Marx, esta “exploração” ocorre porque o trabalhador produz mais valor do que aquele que recebe sob a forma de salário.
Antes do investimento o capitalista necessita de executar estudos de pesquisa e prospeção do mercado, criar um plano de negócios, avaliar o custo de oportunidade e definir riscos. Mesmo após o investimento, ele necessita de focar-se nas suas funções de coordenação e resolução de problemas. O que faz dele, também, um trabalhador. Por outro lado, se o trabalhador acumula capital financeiro, o dinheiro que ganha, e capital intelectual, como os conhecimentos técnicos que obtém no decorrer da realização do seu trabalho, porque que não se pode intitular de capitalista? Se faz parte do processo ativo de criação de capital e se faz parte do sistema capitalista, também é capitalista.
O autor argumenta que o trabalho excedente produz um valor extra, ou mais-valia, que é apropriada pelo capitalista para acumular riqueza. Quando se lê as obras de Karl Marx é difícil apurar se o autor tenciona fazer críticas ou apenas descrever os sistemas que aborda. A crítica existe apenas nos adjetivos que emprega e nos pontos que omite. Esta mais-valia é a atenuação dos riscos em que o capitalista incorre no acto do investimento, nas ferramentas de produção e nas instalações que ergue.
Ao comprarmos um bem como uma casa, um carro ou algo tão banal como uma peça de roupa, participamos neste processo de avaliação de “mais-valia”. Para alguém que não tenha a necessidade de comprar uma peça de roupa, um casaco de couro que custe 120 euros, não só não justifica o investimento como não estaria disposto a pagar um terço do preço por ele. Mas para alguém que substitui o seu carro por um carro elétrico, uma vez que consegue amortizar o seu preço ao fim de 10 anos, poupando na compra de combustível, esta mais-valia é o que faz com que o comprador participe neste sistema de troca.
Na economia moderna, o valor não é cristalizado dentro do objeto através do trabalho, como Marx afirma, ele é subjectivo. Uma garrafa de água no deserto é bem mais valiosa do que uma igual a cinco metros de uma nascente de água. O valor do nosso trabalho advém da procura e não do tempo dispensado pelo trabalhador. Se passar 3 meses a trabalhar num armário de pior qualidade do que um construído numa unidade de produção em massa, é irrelevante o valor que dou a ambos, o mercado e a sua procura é que o definem.
Felizmente, as previsões catastróficas de Marx não se concretizaram como ele descreveu. Segundo o autor, o empobrecimento da classe operária provocada pelo capitalismo levaria à miséria crescente dos trabalhadores. No entanto, em economias capitalistas desenvolvidas, o padrão de vida e os salários reais da classe trabalhadora aumentaram significativamente ao longo do século XX. Nestas sociedades, um indivíduo que pertença à classe de baixo rendimento tem melhores condições de vida do que um rei há 100 anos atrás.
Fora do conceito de pobreza de espírito, a pobreza económica não é apenas uma questão de números na conta bancária, mas sim uma experiência relativa e psicológica. É uma medida social.
“My parents did just well enough so that I could grow up poor around white people… everybody in the projects is poor, and that is fair. But if you were poor in Silver Spring, it felt like it was only happening to you.”
“Os meus pais trabalharam o suficiente para que eu pudesse crescer pobre entre pessoas brancas… toda a gente que vive nos bairros sociais é pobre, e isso é justo. Mas se fores pobre em Silver Spring (cidade rica), parece que algo de errado se passa contigo.”
— Dave Chappelle
Em livros como Factfullness, de Hans Rosling, ou O Iluminismo Agora, de Steven Pinker, os autores demonstram como, nos últimos 200 anos, a percentagem da população mundial a viver em pobreza extrema caiu de cerca de 90% para menos de 10%. O crescimento económico gerado pela acumulação de capital e pelo comércio global permitiu que milhares de milhões de pessoas saíssem da subsistência.

O incentivo ao lucro funciona como um combustível para o progresso tecnológico. A competição que o mercado livre fomenta nas empresas, permite a produção de produtos melhores e mais baratos. Há uma razão pela qual as indústrias mais desreguladas, cujas condições se assemelham às condições ideais de mercado livre, como é o caso da indústria de alta tecnologia, permitem a deflação do preço dos seus produtos, apesar do regime inflacionário que estamos a atravessar. No gráfico, é possível observar esta variação de preços, sendo que as indústrias com maior intervenção ou regulação estatal apresentam os maiores aumentos.
O sistema capitalista é composto por uma rede de sinais de preços que evita o desperdício de recursos. Se um recurso é escasso, o preço sobe, forçando a sociedade a encontrar alternativas ou a usar esse recurso de forma mais eficiente. Isto gera uma otimização que sistemas sem preços de mercado não conseguem replicar. Se, na próxima vez que fores às compras, as maçãs estiverem marcadas a 10 euros o quilo e as peras 2 euros o quilo, apesar da tua preferência por maçãs, acabas por levar as peras se não se justificar o investimento. Se nos próximos dias a maior parte das pessoas partilhar o teu sentimento, ocorre a quebra no stock e o comerciante é forçado a baixar o preço das maçãs até encontrar um novo preço ajustado. O inverso também ocorre, se a procura de um produto for grande, o preço sobe para compensar esta procura. Este sinal é interpretado pelos produtores como uma oportunidade de lucro, pelo que o aumento de produção abastece o mercado até que a oferta exceda a procura, pressionando os preços a baixar, novamente.
A mobilidade social, a liberdade individual e a esperança média de vida global, que rondava os 30 anos no início do século XIX e ultrapassa hoje os 70 anos, são outros benefícios que o sistema capitalista trouxe para a sociedade atual.
Apesar destes benefícios, as críticas a este sistema prevalecem. Não só estão enraizadas na estrutura social, como nos órgãos institucionais públicos.
Thomas Piketty é um economista francês, nascido em 1971, amplamente reconhecido como um dos maiores especialistas mundiais no estudo da desigualdade económica. Frequentemente chamado de “Marx moderno”, a sua tese principal é que o rendimento do capital cresce mais depressa do que a economia, o que leva inevitavelmente à concentração de riqueza. O autor isola o capital financeiro, deixando de lado o seu impacto político nas relações sociais e económicas ao longo da história.
No artigo Sobre Crime, escrevi sobre o impacto que Richard Nixon teve no mundo com as decisões que tomou durante a sua presidência. Uma delas foi quando, em 1971, o dólar deixou de estar ligado ao ouro, através do padrão dólar-ouro, o que permitiu aos Estados Unidos autonomia plena na definição da sua política monetária. As expansões e contrações da massa monetária, ou seja, o número de dólares a circular na economia, criadas por esta nova autonomia, foi o que permitiu aos EUA, e consequentemente, aos outros países, corroer o poder de compra dos seus cidadãos, desvalorizando a sua moeda. O poder de “imprimir” dinheiro de forma ilimitada, distorceu os sinais do mercado. A inflação galopante e a expansão do crédito, que estas medidas criaram, beneficiam quem está perto da “impressora” (bancos e grandes corporações) antes de o dinheiro chegar ao resto da economia. Isto chama-se Efeito Cantillon.
Nesse mesmo artigo, referi o sitehttps://wtfhappenedin1971.com/. Volto a fazê-lo aqui, para mostrar um gráfico onde é possível observar o ponto em que os salários se desacoplaram da produtividade económica.

Naomi Klein é uma das críticas mais influentes do capitalismo contemporâneo, mas a sua perspetiva é frequentemente apontada por economistas de mercado como tendo falhas semelhantes às de Marx, especialmente na forma como interpreta a relação entre o sistema económico e as crises sociais ou ambientais.
No seu livro sobre a crise climática, Klein argumenta que o capitalismo e o planeta estão em guerra e que o sistema de mercado é incompatível com a sobrevivência ecológica. A autora defende que o neoliberalismo avança aproveitando-se de desastres (guerras, crises ou catástrofes naturais) para impor reformas que a população não aceitaria em tempos normais.
Klein vê o capital como uma força que “devora” as pessoas, a natureza e os seus recursos para se expandir, no entanto, existem duas economias emergentes que contrariam esta visão.
Na seguinte imagem de satélite da NASA, é possível observar a variação na área foliar global (o chamado “esverdeamento” da Terra), entre 2000 e 2017. Isto significa que a área verde no planeta aumentou em 550 milhões de hectares nas últimas duas décadas, o que equivale à área da Floresta Amazónica. Um terço deste feito é um contributo da China e da Índia. Quem diria?

A emissão de CO2, um dos principais gases do “efeito estufa”, fruto da forte produção industrial nestes países, potenciou a produção de mais alimentos, o que diminuiu o número de pessoas à fome. É uma verdade inconveniente para muitos, mas as emissões de CO2 também refletem prosperidade.
Muitos críticos do sistema capitalista acabam por fazer julgamentos morais sem uma compreensão completa do seu funcionamento. Geralmente, as suas críticas carecem de uma definição rigorosa e fundamentação, provindo de reações emocionais e ideias preconcebidas. Não procuram provas para testar teorias, procuram factos para as confirmar.
O que é que estes autores, jornalistas e professores têm em comum?
Nunca exerceram atividade no setor privado.
Como é que as ideias mais populares sobre o capitalismo provêm de autores que nunca participaram no sistema, a não ser como consumidores?
Marx nunca trabalhou numa empresa privada no sentido moderno. Foi redator e editor de jornais e viveu grande parte da sua vida com sérias dificuldades financeiras, sendo sustentado pelo seu amigo Friedrich Engels. O percurso de Piketty é estritamente académico e consultivo. Klein é uma intelectual pública cuja carreira se baseia na comunicação e no “ativismo”. Mais uma vez, jornalista e, atualmente, docente. Incrível!
O sistema capitalista é um gigantesco sistema descentralizado de processamento de informação. Os seus benefícios são evidentes, os seus malefícios são residuais, quando compreendido na sua totalidade e operando num mercado livre.
James Baldwin escreveu:
“Love is expensive. One must put furniture around it, or it goes.”
“O amor é caro. É preciso rodeá-lo de móveis, ou ele desaparece.”
Ideias preconcebidas também são caras. E, neste caso, os que as têm, enchem os seus móveis de livros, até deixarem de ver a realidade.

