Sobre Capital

A palavra capital deriva do latim capitālis (“relativo à cabeça”), que por sua vez provém de caput (“cabeça”). O seu uso remonta à Antiguidade Clássica e Pré-História, épocas em que a riqueza de uma pessoa era medida pelo número de cabeças de gado que possuía. O gado foi um dos primeiros e mais fundamentais ativos da história da humanidade. Permitiu produzir valor acrescentado através do leite, carne, trabalho, crias ou meio de transporte. O adjetivo capitãlis reforça esta ideia, significa “o que está acima dos outros, principal ou dominante”.

No Renascimento, os banqueiros italianos passaram a usar capitale para designar a parte principal de uma quantia investida, conceito que evoluiu no século XIX para a definição económica de bens e riqueza. Com o desenvolvimento da Economia Política e de obras como O Capital de Karl Marx, a palavra adotou o significado de “riqueza como meio de produção”, por oposição ao “trabalho”, o “dinheiro que gera dinheiro”.

Hoje, designa o conjunto de bens ou recursos acumulados que são utilizados para produzir novos bens ou serviços. Não se limita apenas a dinheiro, mas inclui todos os ativos que geram valor. “Não se fala de política ou de dinheiro à mesa”, pois alguém já capitalizou a situação. Se a iliteracia financeira e política é um problema atual, associar esta palavra apenas ao dinheiro é uma pena capital.

A forma como organizamos a sociedade atualmente é muito redirecionada pela autoridade estatal, um exemplo prático é a introdução das monoculturas. Estas práticas  de agricultura moderna surgiram como uma ferramenta de controlo social e fiscal. A sua implementação facilita a fiscalização de uma exploração agrícola e permite a simplificação administrativa. É mais fácil taxar um agricultor que explore uma monocultura de framboesas em 20 hectares do que um que cultive 80 espécies diferentes na mesma área.

No imediato, é provável que o capital biológico do agricultor que possui as framboesas seja superior ao do agricultor com 80 espécies, devido à atual valorização deste fruto. No entanto, o valor da sua exploração a longo prazo é inferior. As monoculturas interagem com o solo através de um processo de simplificação ecológica que o esgota de nutrientes. Além desta exaustão seletiva de nutrientes, degradam a sua estrutura física e provocam um redução na biodiversidade de microorganismos. Para compensar esta deficiência, o agricultor necessita de despender recursos na aquisição de compostos e fertilizantes para efetuar a correção química do solo. Somam-se a estes problemas a maior vulnerabilidade a pragas, a condições climáticas extremas, uma dependência excessiva do sucesso de uma única cultura, e a conversão da prática agrícola numa atividade económica meramente sazonal.

Capital é acumulado num longo hiato temporal. Decisões tomadas apenas para obter vantagens a curto prazo acabam por destruir esse capital adquirido.

Uns anos atrás interessei-me pelos princípios da agricultura regenerativa e do planeamento agrícola da permacultura. No processo dei com um artigo titulado “Oito Formas de Capital” de Ethan C Roland. Nele, o autor redefine o atual sistema financeiro com base nos princípios apresentados no capítulo 14, “Estratégias para uma Nação Alternativa”, da obra Permacultura: Um Manual para Designers, de Bill Mollison. Como funcionaria este sistema se operasse como um ecossistema?

“If only fit where the rich sit, I’d be in poor standing.”

“Se apenas coubesse onde os ricos se sentam, eu estaria em má posição”

—KA

O capital financeiro é a forma mais imediata no pensamento das pessoas, é aquele ao qual associamos a palavra. Descreve as diversas formas de dinheiro, moedas, bens, títulos ou outros instrumentos financeiros. Muitos livros tentam explicar a evolução histórica deste tipo de capital e como se adapta às estruturas da nossa sociedade. De todos os que li sobre este tópico, Broken Money,de Lyn Alden, é o mais completo. Desde do início da sua utilização, através de pedras e conchas, até aos sistemas bancários e monetários atuais, a autora explora a história do dinheiro através da sua evolução tecnológica.

“I need money, not for trivial material / Just to fix our flaws, the whole cause is ethereal / What you minin’ for? If unaware share with blind and poor / You tellin’ stories that’s celebratory in times of war / With bars of greed, I plead, how many cars you need?”

“Preciso de dinheiro, não para coisas materiais triviais / Apenas para corrigir as nossas falhas, toda a causa é etérea / Para que trabalhas? Se não sabes, partilha com os cegos e os pobres / Contas histórias que são motivo de celebração em tempos de guerra / Com barras de ganância, eu imploro, quantos carros precisas?”

—KA

O capital material é a extensão mais direta e ao mesmo tempo, mais artificial, do capital financeiro. Este descreve os objetos físicos adquiridos ou desenvolvidos. No entanto, nem todos os objetos constituem uma boa representação de capital material.

Se amanhã, um homem que esteja a passar por uma crise de meia idade entrar num stand da Porsche e comprar um carro para impressionar os vizinhos, apesar de ter aumentado o seu capital material, diminuiu mais o seu capital financeiro. Este bem desvaloriza assim que sai do stand, tem custos de manutenção e requer combustível para se deslocar.

No entanto se há 70 anos atrás o seu bisavô se deslocar a esse mesmo stand e comprar um trator, a lógica seria inversa. Não só estaria a adquirir um bem que não desvaloriza com a mesma cadência, devido ao seu caráter utilitário, como estaria a adquirir um instrumento de trabalho. Esse trator permitiria aumentar a produtividade da sua terra, convertendo capital material em mais capital financeiro através da produção agrícola. Hoje, esse mesmo trator, como item de coleção, teria preservado ou até multiplicado o capital investido, provando que o capital material só é valioso quando potencia a criação de novos recursos em vez de consumir os existentes.

“Funny used to call my friends money, I lost hundreds”

“Engraçado, costumava chamar ‘dinheiro’ aos meus amigos, perdi centenas.”

—KA

Não é importante o número de amigos que tens, mas aqueles com quem podes contar.

O teu capital social não se resume ao número de seguidores que tens no instagram, mas quantos te ajudariam num aperto. Na política ou no mundo do trabalho, por vezes, o mais importante não é o que conheces, mas quem conheces. As tuas capacidades e qualidades só te levam a certo ponto. Normalmente o trabalhador mais próximo do patrão é aquele com quem mantém uma melhor relação social e não aquele que produz mais ou possui mais competências.

“They deeds disease the seeds, I produce produce”

“Os atos deles adoecem as sementes, eu produzo produtos (alimentos).”

—KA

Capital vivo é mais relevante na agricultura, este comporta, os animais, as plantas, a água, o solo e terra, constitui a base da vida no planeta. É o único que possui capacidades regenerativas.

Nós, seres humanos, também fazemos parte do capital vivo. A nossa saúde, capacidade de reprodução e disponibilidade física é de extrema importância para os ecossistemas em que nos inserimos e para quem depende de nós. Só somos aquilo que o nosso corpo nos permitir fazer.

“Motives too ill to build, helped demolish / Till I realized wealthy is health and knowledge”

“Motivos demasiado fracos para construir, ajudaram a demolir/ Até que percebi que riqueza é saúde e conhecimento”

—KA

Os conhecimentos que cada um possui e que adquiriu ao longo da vida é o nosso capital intelectual. A capacidade que cada um possuí para transformar os nossos conhecimentos e aplicá-lo em situações do dia a dia, é o nosso capital experiencial ou humano. Representa a parte prática do capital intelectual, como por exemplo, organizar um projeto, reparar uma bicicleta ou usar os conhecimentos teóricos para desenvolver capacidades práticas.

“Hope the sacrifice match the vice / Speak thoughts sincere to spare the soul / I pray every cross you bear is gold”

“Espero que o sacrifício iguale o vício / Expressa pensamentos sinceros para poupar a alma / Rezo para que cada cruz que carregues seja de ouro.”

—KA

Capital espiritual contém aspetos do capital intelectual e humano mas é mais pessoal e menos quantificável. Mesmo que alguém não se identifique com alguma religião, se considere agnóstico ou ateu, possuem na mesma esta forma de capital. Aquilo em que acreditamos é diferente daquilo que nos afeta. A maneira como lidamos ou refletimos sobre as adversidades que enfrentamos ou a bonança que nos contempla, é uma reflexão da capacidade espiritual que possuímos.

Duas pessoas podem ter exatamente a mesma rotina diária, e, no entanto, vivenciá-la de formas distintas. O início do dia pode incluir acordar cedo, fazer o pequeno-almoço para os filhos, levá-los para a escola e conduzir para o trabalho. Para um é um fardo ter que organizar esta atividades todas antes de entrar para o trabalho, levar com o trânsito da cidade e ouvir os berros das crianças no caminho. Para outro é uma benção poder alimentar os seus filhos, partilhar com eles este pedaço de tempo e, conformado com o trânsito, aproveitar para ouvir as suas músicas favoritas. Estas pequenas diferenças de capital espiritual que ambos possuem fazem a diferença no final do dia. Tornam um mau dia num dia normal, um dia normal num bom dia ou um dia desgastante num dia produtivo.

“Can’t afford to have one wasted or fall through / ‘Cause if one make it, we all do / Success is by committee, never all you”

“Não posso dar-me ao luxo de ter um [amigo] desperdiçado ou que falhe / Porque se um conseguir, todos conseguimos / O sucesso é por comité, nunca és só tu.”

—KA

Capital cultural descreve os processos internos e externos de uma comunidade, é o único que não pode ser acumulado por um indivíduo. É visto como uma propriedade emergente de um sistema complexo de trocas de capital interno num local, como uma vila, cidade, região ou nação.

These seconds, these minutes are ours (hours)”

“Estes segundos, estes minutos, são nossos (horas)”

— KA

A estas oito formas de capital eu adiciono o tempo. O tempo é uma dimensão, um recurso, capital. Este interage com o capital financeiro e o intelectual formando um trilema.

Para obteres conhecimentos necessitas de dedicar tempo à aprendizagem e do teu dinheiro para financiar um curso, uma formação ou um tutor. Se necessitares de tempo livre, pagas para delegar tarefas, e aplicas o teu conhecimento para otimizar processos. Se precisares de dinheiro, aplicas os teus conhecimentos e o teu tempo prestando os teus serviços.

O conceito de dividir o capital em várias partes é comum noutras culturas. No yoga, os Pancha Koshas (cinco “bainhas” ou camadas da existência humana) funciona como sistema de capital interno. Estes representam Annamaya Kosha (corpo físico), Pranamaya Kosha (corpo energético), Manomaya Kosha (corpo mental), Vijnanamaya Kosha (corpo intelectual) e Anandamaya Kosha (corpo da bem-aventurança).

Outras culturas ancestrais e filosofias de bem-estar que utilizam sistemas de “múltiplos capitais” que rejeitam a ideia de que a riqueza é apenas financeira. Dos Mauri, aos povos Andinos, à Grécia antiga, todos dividiram capital em várias categorias.

Em 1972, o Butão substituiu o PIB (Produto Interno Bruto) pela Felicidade Interna Bruta (FIB), um índice que divide o “capital” nacional em quatro pilares fundamentais:

  • Desenvolvimento Socioeconómico Sustentável: (Capital Material/Financeiro);
  • Preservação Cultural: (Capital Cultural);
  • Conservação Ambiental: (Capital Vivo);
  • Boa Governação: (Capital Social/Institucional).

Há poucos dias, após meses de tensão e do fracasso da diplomacia nuclear que se encontrava em curso, as forças dos EUA e de Israel lançaram uma ofensiva em larga escala contra o Irão. A guerra é um dos eventos mais devastadores na destruição de capital, um autêntico “buraco negro” que consome as suas múltiplas formas. 

Sem o devido contexto, pode parecer insensível falar de capital ao discutir o tema da guerra, contudo, com a palavra devidamente contextualizada permite o enquadramento correto. A aniquilação do capital financeiro e material é o menor dos nossos problemas perante a perda de capital vivo e cultural. Quando os nossos governos optam por colocar a vida dos seus cidadãos em risco ou pela destruição de comunidades inteiras, é de capital importância opor estas decisões.

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