Cada um tem uma definição diferente para o sentido da vida. O desenvolvimento de autoconsciência no ser humano levou-nos a obcecar com esta questão filosófica. “Qual é para ti o sentido da vida?” é recorrentemente a pergunta que fecha as entrevistas feitas a personalidades conhecidas, escritores ou filósofos.
É curioso ouvir as respostas. Grande parte está ligada à felicidade pessoal, aproveitar o momento “carpe diem”, amar, ou ser criativo. Outros definem o sentido da vida como sendo um desafio, cumprir deveres éticos, morais ou religiosos ou contribuir para a sociedade.
Estas respostas agrupam-se em dois tipos: o grupo das experiências internas, para as respostas anteriores, e o grupo das experiências externas, para as respostas posteriores. Por vezes, existe alguma sobreposição. Constituir família, por exemplo, pode ser interpretada como uma experiência externa, representada pela fecundação e continuidade da espécie, ou como uma experiência interna, uma vez que envolve emoções e a criação de laços afetivos.
As experiências, ou perspectivas filosóficas, neutras como o niilismo ou o absurdismo são o tipo de respostas menos recorrente nestas entrevistas. A menos que a pessoa entrevistada tenha vontade de terminar a conversa num tom fatalista.
Quem estiver verdadeiramente interessado em procurar ou compreender o sentido da vida deve englobar nele toda a vida. Não devemos excluir grupos de pessoas que não possam ou não tenham a oportunidade de experienciar a vida como nós. Seres humanos que vivem com deficiências mentais ou físicas observam uma realidade diferente. Uma pessoa com um comprometimento ou deficiência visual pode mostrar maior sensibilidade auditiva ou tátil. Mesmo que não possa contemplar uma montanha majestosa, ou apreciar uma pintura, internaliza e processa estímulos que outras pessoas não têm capacidade de perceber.
Uma criança que cresça numa zona de conflito ou que nasça num país com um regime totalitário ou ditatorial não poderá, num futuro imediato, experienciar novas culturas ou viajar para outros países, assim como alguém que não tenha condições económicas para o fazer. Cerca de duzentos anos atrás, alguns destes “sentidos da vida” não seriam possíveis. Este tipo de viagem só se tornou prático com a comercialização das travessias em barcos e comboios a vapor, no início do século XIX.
Que propósito de vida seria a produtividade e criatividade humana para alguém que nasceu na escravidão, ou para o zek que trabalhou durante décadas, num gulag, recebendo apenas uns pedaços de pão como ração diária, até à exaustão ou até à morte, quem o acolher primeiro.
Usar estes “sentidos da vida” como mantra pode dar a alguém um propósito, mas também pode levar ao extremo. Há quem cometa actos de extrema perigosidade para testar os limites da vida.
Estas pessoas são viciadas em adrenalina e procuram experiências que ativem esse circuito hormonal. Estes actos viciam o sistema de recompensa dopaminérgico, que em apenas umas horas passa de um estado de euforia, para uma fase de paz e serenidade e, quando os níveis de dopamina caem abaixo do nível basal, culmina numa sensação de vazio e desejo de repetir o acto radical.
Um sistema que foi concebido para reforçar comportamentos que aumentam a probabilidade de sobrevivência é agora altamente suscetível às drogas, jogos de azar, redes sociais, risco extremo e pornografia. Cria um feedback loop provocado por estímulos artificiais que dessensibilizam e alimentam um comportamento autodestrutivo.
A comercialização de produtos que exploram as fragilidades deste sistema fez crescer empresas multibilionárias, como é o caso do Facebook, em que trabalhadores já divulgaram publicamente algumas das estratégias implementadas para tirar proveito do utilizador, ou o caso da Red Bull, que patrocina atletas que competem nos desportos com os maiores níveis de mortalidade. Red Bull dá-te asas, literalmente.
“… the free climbers. What’s happening during the experience? I’m totally present, I’m one with life, I’m grounded, I’m totally focused, I’m fully alive. Why? Because it triggers the dopamine in their brain.”
“…os escaladores livres. O que acontece durante a experiência? Estou totalmente presente, sou um com a vida, estou enraizado, completamente focado, plenamente vivo. Porquê? Porque isso ativa a dopamina no cérebro deles.“
— Gabor Maté
Todos vivemos em condições e realidades diferentes. Cada um lida com a vida à sua maneira, mas a palavra-chave aqui é “vida”, e não somos a única espécie viva.
O conceito de sentido da vida não se limita aos seres humanos, mas abrange toda a vida. Não só o grupo dos animais, plantas e fungos, mas também organismos unicelulares.
“If a lion could speak, we could not understand him”
“Se o leão falasse, nós não o entendíamos”
— Ludwig Wittgenstein
Se existe um ponto para abandonar a leitura deste artigo, receio que o tenhamos atingido. Para chegar ao fundo desta questão é necessário entrar no mundo da metafísica e abandonar intencionalidade, experiência ou propósito, uma vez que nem todos os seres vivos possuem essa capacidade.
Fazemos parte de um ecossistema que se sobreleva à nossa existência. A vida existiu durante milhões de anos antes e continuará a existir após a extinção da nossa espécie.
Que sentido da vida se adequa a uma planta ou a uma raposa? Que experiências identificamos na natureza?
As abelhas polinizam as plantas, que crescem e oferecem sombra e alimento aos animais. As árvores são transformadoras de água e dióxido de carbono. O castor derruba a árvore para criar o seu habitat, nós usamos-las como matéria-prima, a girafa consome as suas folhas, o veado alimenta-se das ervas. O leão mata a sua presa, o mosquito consome nectar, recicla matéria orgânica e nutrientes em ecossistemas aquáticos, que ultimamente fertilizam as plantas. Há um ciclo de equilíbrio e ajustes.
Todos os animais possuem experiências externas e internas próprias, mas estas são ações e funções biológicas, não um sentido da vida. São natureza, são instintos, somos rodas dentadas num sistema global.
No prólogo, da versão inglesa do seu livro, Feeling and Knowing: Making Minds Conscious (Sentir e Saber: A Caminho da Consciência), o neurocientista português António Damásio define o propósito da vida:
“homeostasis was assisted by newly evolved coordinating devices known as nervous systems… Gradually, over a few hundred million years, homeostasis began to be partly governed by minds… Feelings, on the one hand, and creative reasoning, on the other, came to play important parts in the new level of governance that consciousness allowed. The developments amplified the purpose of life: survival.”
“homeostase foi auxiliada por dispositivos de coordenação recentemente evoluídos, conhecidos como sistemas nervosos… Gradualmente, ao longo de algumas centenas de milhões de anos, a homeostase começou a ser parcialmente governada pela mente… Os sentimentos, por um lado, e o raciocínio criativo, por outro, passaram a desempenhar papéis importantes no novo nível de governança possibilitado pela consciência. Esses desenvolvimentos ampliaram o propósito da vida: a sobrevivência.”
— António Damásio
Sobrevivência. É a solução mais elegante e mais simples para a nossa questão.
Esta visão Darwinista é ainda hoje muitas vezes rejeitada pela sociedade atual, uma vez que aparenta ser reducionista. Escapa à ideia de propósito que nos é incutida por religiões, culturas e filosofias morais. Desmistifica mitos e ilusões reconfortantes.
“What I want to earn from this journey is to arrive at my peak / Assess more goals for myself, like surviving is weak”
“O que quero ganhar desta viagem é atingir o meu pico / Avalio mais finalidades para mim, como se a sobrevivência fosse fraca”
— KA
Aprendemos a defender-nos contra predadores. Desenvolvemos comunidades e domesticámos a natureza e a vida selvagem. Formámos sociedades complexas por meio de evoluções tecnológicas e leis. Criámos produção em grande escala com a Revolução Industrial e colmatámos as suas limitações com a ciência moderna e a tecnologia digital. Ao mesmo tempo, afastámo-nos de quem nos formou e nos criou, a Natureza. Desenvolvemos o ego, e sentimo-nos superiores aos outros seres vivos, somos mais que a própria vida. Buscamos propósitos, objetivos, metas a cumprir. Sobrevivência não é suficiente, não alimenta almas frágeis.
Por mais técnicos e evoluídos que queiramos parecer, com mais de trezentos mil anos de evolução, continuamos a resolver problemas. Soluções artificiais para problemas artificiais, a sobrevivência está na mala do carro e a curiosidade humana ao volante.
No epílogo do mesmo livro, António Damásio fala destes problemas:
“We need to respect the phenomenal and incompletely understood intelligence and designs of nature itself… Behind the harmony or horror that we recognize in great art created by human intelligence and sensibility, there are related feelings of well-being, pleasure, suffering, and pain… Acknowledging priorities and recognizing interdependence may come in handy as we cope with the ravages that we humans have inflicted on the earth and on its life, ravages that are likely responsible for some of the catastrophes we currently face, climate changes and pandemics being two prominent examples. It will give us an additional incentive to listen to the voices of those who dedicate their lives to thinking through the large-scale problems we face and recommend solutions that are wise, ethical, practical, and compatible with the big biological stage that humans occupy. There is some hope after all, and perhaps there should be some optimism as well.”
“Precisamos de respeitar a inteligência e os desígnios fenomenais e ainda incompletamente compreendidos da própria natureza… Por trás da harmonia ou do horror que reconhecemos na grande arte criada pela inteligência e sensibilidade humanas, existem sentimentos relacionados de bem-estar, prazer, sofrimento e dor… Reconhecer prioridades e compreender a interdependência pode ser útil à medida que lidamos com as devastações que nós, humanos, infligimos à Terra e à sua vida, devastações que provavelmente são responsáveis por algumas das catástrofes que enfrentamos atualmente, sendo as alterações climáticas e as pandemias dois exemplos proeminentes. Isto dar-nos-á um incentivo adicional para ouvir as vozes daqueles que dedicam as suas vidas a refletir sobre os problemas de grande escala que enfrentamos e a recomendar soluções sábias, éticas, práticas e compatíveis com o grande palco biológico que os seres humanos ocupam. Afinal, há alguma esperança e talvez devesse haver também otimismo.”
— António Damásio
Apesar de concordar com o autor, relativamente ao nosso impacto no planeta Terra, discordo da amplitude e do grau de protagonismo que a atividade humana teve na criação destes problemas. António Damásio, em representação da comunidade científica estabelecida, não podia deixar de marcar a posição consensual de que o ser humano é o culpado de todos os males no mundo.
Estas palavras ilustram mais um sintoma da necessidade humana de actuar, de impactar o mundo, de colocar a sua impressão digital. Muitas vezes a melhor solução é a não solução, a não intervenção.
“People walking around all day long, every minute of the day, worried about everything! Worried about the air; worried about the water; worried about the soil… worried about saving endangered species… Saving endangered species is just one more arrogant attempt by humans to control nature. It’s arrogant meddling; it’s what got us in trouble in the first place. Doesn’t anybody understand that? Interfering with nature. Over 90%, WAY over 90% of all the species that have ever lived on this planet, ever lived, are gone! Pwwt! They’re extinct! We didn’t kill them all. They just disappeared. That’s what nature does… Let them go gracefully. Leave nature alone. Haven’t we done enough? We’re so self-important.”
“Pessoas andando por aí o dia inteiro, a cada minuto do dia, preocupadas com tudo! Preocupadas com o ar; preocupadas com a água; preocupadas com o solo… preocupadas em salvar espécies ameaçadas… Salvar espécies ameaçadas é apenas mais uma tentativa arrogante dos humanos de controlar a natureza. É uma intromissão arrogante; é isso que nos colocou em apuros desde o início. Será que ninguém entende isso? Interferir na natureza. Mais de 90%, bem mais de 90%, de todas as espécies que já viveram neste planeta, que já existiram, desapareceram! Pff! Estão extintas! Nós não as matamos todas. Elas simplesmente desapareceram. É isso que a natureza faz… Deixem-nas partir com dignidade. Deixem a natureza em paz. Não fizemos já o suficiente? Somos tão egocêntricos.”
— George Carlin
Em 2020, a Netflix lançou um documentário intitulado A Life on Our Planet narrado por David Attenborough. Neste documentário, David Attenborough reflete sobre a sua carreira e sobre a sua vida pessoal, mostrando as mudanças ambientais a que assistiu. Focado em questões de destruição ambiental, conservação da biodiversidade e esperança para o futuro da espécie humana, este documentário inicia e termina com filmagens das condições atuais da cidade ucraniana de Chernobyl. Evacuada após o desastre nuclear, as imagens mostram como, num espaço de menos de 40 anos, a cidade foi reivindicada pela natureza.

Um edifício rodeado pela floresta selvagem de Pripyat
O documentário finaliza com a proposta de David Attenborough para o problema da continuidade da espécie humana:
“There are many differences between humans and the rest of the species on earth, but one that has been expressed is that we alone are able to imagine the future. For a long time, I, and perhaps you, have dreaded that future, but now, it’s becoming apparent that it’s not all doom and gloom. There’s a chance for us to make amends, to complete our journey of development, managе our impact, and once again become a spеcies in balance with nature. All we need is the will to do so. We now have the opportunity to create the perfect home for ourselves and restore the rich, healthy, and wonderful world that we inherited. Just imagine that.”
“Há muitas diferenças entre os seres humanos e o resto das espécies da Terra, mas uma que costuma ser destacada é que só nós somos capazes de imaginar o futuro. Durante muito tempo, eu, e talvez tu, temi esse futuro, mas agora está a tornar-se claro que nem tudo é ruína e desolação. Existe a oportunidade de repararmos os nossos erros, de completarmos a nossa jornada de desenvolvimento, gerir o nosso impacto e, mais uma vez, nos tornarmos uma espécie em equilíbrio com a natureza. Tudo o que precisamos é da vontade de fazê-lo. Agora temos a oportunidade de criar o lar perfeito para nós mesmos e restaurar o mundo rico, saudável e maravilhoso que herdamos. Imagina isso.”
— David Attenborough
“Imaginar o futuro”, “gerir o nosso impacto”, “temos agora a oportunidade de criar o lar perfeito para nós”. Esta visão não é a solução para os nossos problemas, esta visão foi quem os criou!
“You are the victim of men who think they are right”
“Tu és a vítima dos homens que pensam que têm razão.”
— Merry Christmas Mr. Lawrence
A sobrevivência é suficiente. Não só é suficiente como é o sentido da vida. A complexidade da nossa espécie relativamente às outras não faz de nós seres superiores, só nos oferece mais escolhas, apresenta mais opções de vida. Esta visão não é simplista ou redutora, muito pelo contrário, é inclusiva. É um erro achar que outras pessoas são menos que nós só porque não partilham as mesmas rotinas diárias ou perspectivas sobre a vida. É discriminatório, é divisório, é o oposto da vida.
Os comportamentos do reino animal, moldados por mecanismos evolutivos e por predisposições biológicas, contribuem para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas em que estas as espécies se inserem. Para garantirmos este equilíbrio temos que aprender as lições que a natureza nos ensina. A nossa liberdade termina quando interfere com a liberdade dos outros. O planeamento e a modelação de potenciais eventos não só hipotecam o futuro das gerações atuais como limitam e restringem a liberdade de gerações futuras.
Ajuda aqueles que a pedem e não aqueles que passam dificuldades. As dificuldades são temporárias, os danos e as consequências dos nossos actos são permanentes.
“Qual é para ti o sentido da vida?
— Não sei em que direção é que ela vai, só espero que se esconda dos que a procuram.”

