“Antes de nascermos, vivemos uma eternidade, após a morte, viveremos eternamente”
— Algum filosofo, provavelmente.
O ano passado, foi lançado o antecipado álbum dos Clipse, “Let God Sort Em Out”. Os rappers Pusha T e Malice decidiram abrir o álbum com uma faixa dedicada aos pais, que faleceram com apenas quatro meses de diferença. Com a participação de John Legend, Stevie Wonder e produzida por Pharell Williams, esta música apanhou muitos de surpresa. Conhecidos pelos seus versos sobre as ruas e as drogas, ninguém contava ouvi-los falar sobre uma experiência tão pessoal como relatar as últimas conversas que tiveram com os pais. Foi a primeira vez que se apresentaram, artisticamente, como irmãos.
“Lost in emotion, mama’s youngest / Tryna navigate life without my compass / Some experience death and feel numbness / But not me, I felt it all and couldn’t function”
“Perdido na emoção, o filho mais novo / A tentar navegar a vida sem a minha bússola / Alguns experienciam a morte e ficam dormentes / Mas eu não, senti tudo e fiquei incapaz de funcionar.”
— Pusha T
A brilhante decisão de iniciar o álbum com este relato pessoal prende de imediato o ouvinte e força-o a lidar com um tema que muitas pessoas hoje em dia evitam. Numa era em que cada um ouve músicas em shuffle, ou playlists especificamente concebidas por algoritmos, que agrupam músicas segundo género e BPM, os Clipse aproveitaram a antecipação do álbum e a promoção do mesmo para destacar esta música. Mais tarde, tiveram a oportunidade de a actuar no Vaticano.
“The way you missed mama, I guess I should have known/Chivalry ain’t dead, you ain’t let her go alone”
“A forma como sentiste a falta da mãe, acho que devia ter percebido / O cavalheirismo não morreu, não a deixaste ir sozinha”
— Malice
Pusha T, no primeiro verso, fala sobre a última conversa que teve com a mãe, numa véspera de férias. Ele descreve-se como alguém que aparenta estar demasiado absorvido pela sua vida profissional para interpretar os sinais premonitórios que a sua mãe lhe estava a dar.
“You were checkin’ boxes, I was checkin’ my mentions/Sayin’ you was tired but not ready to go/Basically was dying without lettin’ me know”
“Tu estavas a resolver pendências, eu estava a resolver mensagens / Dizias que estavas cansada, mas não pronta para ir / Basicamente estavas a morrer sem me dizeres”
— Pusha T
A sua ética de trabalho, a sua produtividade artística, assim como os diversos papéis que desempenhou, como o papel de Presidente da Editora GOOD Music, de 2015 a 2022, talvez tenham contribuído para toldar a sua avaliação da condição de saúde em que se encontrava a sua mãe.
No segundo verso, Malice, fala sobre a experiência que teve ao encontrar o pai falecido na cozinha de sua casa.
Afastado do grupo e convertido ao cristianismo, o rapper reflete nestes versos a conversa que teve com o pai, que foi ministro e diácono, sobre a possibilidade de voltar a fazer música com o irmão, assim como a disciplina, estrutura e amor que lhe deu.
Posteriormente, numa entrevista, Malice revela o motivo que o levou a juntar o grupo:
“When we get ready to do a show and I’m ready to go to the stage and my brother stops me and grabs my hand and we get together and pray… I feel like… that’s all I’m in this for.”
“Quando nos preparamos para dar um concerto e estou pronto para subir ao palco e o meu irmão pára-me, agarra na minha mão e juntamo-nos para rezar juntos… Sinto que… é por momentos destes que faço isto.”
Cada um lida com a morte de maneira diferente. Não existe um protocolo, uma maneira correta para a processar. As tradições e os rituais deviam falar mas a sociedade grita por cima. É difícil não ficar dessensibilizado quando somos constantemente bombardeados com notícias sobre guerras, homicídios, desastres naturais, acidentes de viação, ou simplesmente… bombardeados.
Para cumprir a tradição, já não é fácil juntar, por umas horas, um grupo de desconhecidos aperaltados (roupa adequada à religião), num edifício de pedra para honrar um defunto que será agrupado com outros, num recinto vedado por muros, barrado com um portão, com um horário de funcionamento, de preferência o mais longe possível do centro da cidade, por questões de ordenamento urbanístico e de saúde pública.
Num mundo de excessos é difícil encontrar um equilíbrio. Estaremos a negligenciar a nossa relação com a morte porque estamos constantemente a tentar potenciar a vida? Viver melhor, trabalhar melhor, dormir melhor? Desconfio que não.
“The secret to life is to “die before you die” — and find that there is no death”
“O segredo da vida é “morrer antes de morrer” – e descobrir que não existe morte“
— Eckhart Tolle
Quando estive em Varsóvia, visitei o Museu de História dos Judeus Polacos (POLIN). Relativamente cedo, naquela que acabaria por ser uma visita de três horas, observei um quadro que continha umas figuras da Idade Média a dançar num círculo de mãos dadas com uns esqueletos. Após pesquisa, constatei que este tema artístico “Danse Macabre”, foi reproduzido por artistas no período subsequente à Peste Negra. Num contexto de abundância de doenças, guerras e crises sociais, estes murais e gravuras personificam a Morte a dançar com pessoas de todas as classes sociais, servindo como lembrança moral e espiritual da sua universalidade e contextualizando-a de modo a reduzir o medo coletivo da época.

Danse Macabre (detalhe) – Bernt Notke
Hoje em dia, este tema tornou-se taboo. É difícil atribuir a culpa do motivo, quando existem vários responsáveis: da secularização moderna à cultura consumista, do número de distrações e estímulos a que somos sujeitos no dia a dia ao avanço da medicina moderna, que não só reduziu os números de mortalidade, como afastou a morte de casa e vedou-a num ambiente clínico.
“…you don’t hear that anymore, do you? Frank peacefully died in his sleep. No, he died in the operating table whilst putting on a new lung.”
“…hoje me dia já não se ouve isso, pois não? O Frank morreu pacificamente a dormir. Não, morreu na mesa de operação enquanto lhe colocavam um pulmão novo.”
— Karl Pilkington
Recentemente, têm-se popularizado os estudos de certos biomarcadores de uma pessoa para estimar a sua idade genética. Estes estudos avaliam inúmeros indicadores como a densidade óssea, o encurtamento dos telómeros, inflamação crónica, entre muitos outros. Os avanços tecnológicos na área da saúde, especialmente na medicina genómica e de precisão, são extraordinários, no entanto, devem ser contextualizados. É ótimo dispor destas ferramentas, mas facilmente tornam-se desculpas para o desleixo. Um analgésico para uma dor de cabeça provocada por horas a fio em frente à televisão, protetores gástricos para alimentações pouco saudáveis, um estimulante para compensar horas de sono.
Quem participa nestes estudos deixou de saber ouvir o seu corpo, quem passa a vida no médico sabe que não é a personificação da saúde. O receio relativo ao bem-estar não prova aquilo que desconhece, mas sim a familiarização com os seus erros. Pessoas que negligenciam a sua qualidade de vida, conformaram-se com a morte. Quer esta decisão tenha sido tomada consciente ou inconscientemente, o efeito é o mesmo.
Estas palavras não são julgamentos. Tenho consciência que muitas escolhas menos saudáveis na nossa vida provêm de imposições ou circunstâncias que não controlamos.
Independentemente das escolhas de vida, todos os dias estamos mais próximos do nosso destino final. Nós não vivemos para morrer, nós morremos enquanto vivemos.
Existe uma falta de espiritualidade na nossa cultura. A interpretação da morte não deve ser vista como um vazio. Ao observar a natureza por uns segundos, reconhece-se um ciclo, um círculo fechado, sem início, meio ou fim. Quem a interpreta como sendo vazia ou a observa com indiferença e desprezo, deve compreender que isso reflete uma projeção interior. Quando essa experiência de vazio é acompanhada de apatia ou desconexão, pode constituir um empobrecimento espiritual ou moral em relação à vida.
O sentido de identidade pessoal distingue-nos dos outros seres vivos. No entanto, cada um deve compreender que Deus e a Natureza não estão interessados na nossa miséria, não estão preocupados com os nossos problemas ou com as nossas identidades. Temos que ter consciência disso e ser capaz de nos afirmar e exprimir, apesar dessa impessoalidade.
Devemos saber que silêncios preencher, que ruídos filtrar, que vontade impor, que imperfeições aceitar.
“Wild animals run from the dangers they actually see, and once they have escaped them worry no more. We however are tormented alike by what is past and what is to come. A number of our blessings do us harm, for memory brings back the agony of fear while foresight brings it on prematurely. No one confines his unhappiness to the present.”
“Os animais selvagens fogem dos perigos que realmente vêem, e uma vez que os escapam, deixam-se de preocupar. Nós, no entanto, somos atormentados tanto pelo que passou como pelo que está por vir. Muitas das nossas bênçãos prejudicam-nos, pois a memória traz de volta a agonia do medo, enquanto a previsão a antecipa prematuramente. Ninguém limita a sua infelicidade ao presente.”
— Lucius Seneca
As pessoas que mais refletem e tentam compreender a morte, num contexto simbólico, são os escritores, os poetas e os filósofos. Cabe a este grupo desmistificar o mito da morte que se enraizou na nossa sociedade.
Três livros que me marcaram muito sobre este tema é o “Para Sempre” do Vergílio Ferreira, a “Apresentação do Rosto” do Herberto Hélder e “Húmus” do Raul Brandão.
Em “Húmus” cada palavra está prenhe de significado. Neste monólogo fragmentado, Raul Brandão constrói um dicionário da morte, cada termo que o autor emprega alude a essa transição e provoca uma reação visceral do leitor. O desgosto, o fel, o amargo, a dor, o grito, o sonho, o medo, o sacrifício, o dever, a consciência, são algumas das palavras usadas para transmitir o peso da morte. Esta bagagem emocional que o autor descreve provém do ego, da identificação pessoal com este estado de sofrimento. A consciência permite-nos fugir da nossa natureza, mas ao fazê-lo, deixamos de saber interpretar os sinais que ela nos transmite. Criamos um mundo à parte, desenvolvemos um cancro, o ego cresce e corrói a ligação do homem com o todo.
A interpretação que faço desta obra é que a morte não é um ponto final na vida de uma pessoa, é algo que nos acompanha. É a folha que cai no chão, é a corrente do rio que desgasta a pedra, é a força do vento que renova o pó.
“Os túmulos estão gastos dum lado pelos passos do vivos e do outro pelo esforço dos mortos”
— Raul Brandão
Hoje passei por um portão metálico. Senti um calor nostálgico. Não consegui discriminar de imediato a sua razão. Uns passos à frente apercebi-me que é parecido com o portão do cemitério onde estão enterrados os meus avós maternos. Não conheci a minha avó e o meu avô faleceu quando eu tinha sete anos de idade.
Instintivamente, a memória deste portão devia ter despertado em mim um sentimento de tristeza, pela perda que representa. Mas, embora tenha sido uma perda física, foi um ganho na ligação emocional que criei com o meu avô, nos valores que me incutiu e, acima de tudo, nas memórias que guardo do tempo que passei com ele e dos laços que criei na sua terra.
A morte é um espectro.
É o cheiro de um bébé recém nascido, é o enrugar da pele. É um ponto no ciclo da vida, mas não fecha o ciclo. É o mesmo calor que decompõe os corpos e seca os ribeiros. É o sol que faz crescer plantas, aquece-nos a pele e faz-nos sentir vivos. É fertilizante, é húmus.
Mantém-na por perto.
Guarda-a no bolso se te sentires confortável, prende-a numa trela se ainda não confias nela, deixa-a sobrevoar-te como um abutre se pretendes observá-la à distância, mas vê-a na tua vida.
Tenta compreendê-la.
Não deixes que a religião a defina por ti. Não deixes o Estado, a lei, ou as estatísticas te digam quando se aproxima.
Dedica-te àquilo a que estejas disposto a morrer, seja isso a tua família, a tua arte, o teu trabalho, um passatempo, os teus princípios. Lembra-te que mesmo que estejas sozinho, estás bem acompanhado.
“…a gente precisa de encontrar o seu verdadeiro lugar para morrer. Aí é que se vive.”
— Herberto Hélder

